terça-feira, 2 de junho de 2009

Da infância o primordial. (no I)


De tanto ser o que eu sou, acabei sendo aquilo que eu era. E assim diante dos braços e abraços da minha volta, volto sempre a me perguntar:
- Quem realmente está aqui?
Não sei se talvez seja um pouco mais sincero agir de tal modo, esperando respostas quase que automaticas sobre questões basais diárias.
A velha casa do Largo da Madeira não era como antes. Agora sua fachada branca apresentava-se amarelada, quase um tom "cor de pele" como chamam por aí. Seu dois andares antes tão altos pareciam ter diminuido. Assim como suas janelas, da fronte central, pareciam estar menores e em menor número. Seu aspecto vivo e empolgante das festas que embalaram dias e dias afim estão presos no passado. Ela já não pulsa mais. Não é mais convidativa, alegre e harmoniosa.

Lembro-me bem da casa 49 do Largo da Madeira. Meus tempos de infância não a tiram tão facilmente da memória. Não existe recordação, dos meus 0 a 16 anos em minha mente, de domingo longe de lá. Quer dizer, existe, a não ser quando minha avó veio falecer. Fora isso é como se fosse automático. Eu, criança grande e gorda, adentrar correndo o portão da frente. Pulando com cuidado as pedras do caminho, as quais já havia decorado desde que aprendi a andar. Por sinal, minha mãe disse me que eu aprendi a andar na casa 49. Aliás aprendi quase tudo lá. Foi lá que eu andei, falei, brinquei, conheci pé de muleque, goiba de pé, pique esconde, história de terror, amor, primeiro beijo, carinho de vó, jornal, sorvete, lição de moral, filme de velho oeste, natal, pascoa... aprendi a ser eu.

E agora está ali. Parece adormecida e palida. Vou correndo os meus dedos pelo portão e me pego parado com cara de bobo e olhar perdido na frente da casa.
Um rapaz passa e me interrompe "Moço, está tudo bem? Tá interessado na casa?". Eu pisco, e volto aos meus 32 anos. "Não. Quer dizer sim. Está tudo bem. Não sei. Você disse interessado na casa?". O rapaz volta os olhos para mim "Se quiser eu posso te ajudar. Qualquer coisa eu tenho um primo que é amigo da família. Sabe como é né? Briga por herança... Dizem que a casa vive assombrada por fantasmas do passado. Parece que o fim da velha foi triste.".
Eu não digo nada e saio andando, ainda escutando o rapaz chamar-me e perguntar se estava tudo bem. Ainda ressoa em minha cabeça: "Sabe como é né? Briga por herança... Dizem que a casa vive assombrada por fantasmas do passado. Parece que o fim da velha foi triste."
"Eu sou um desses fantasmas."
Bruno Lagoeiro

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